UECE promoverá 1º Colóquio de Filosofia da Linguagem

O I Colóquio de Filosofia da Linguagem da UECE (5/12/2017 – início)) tem como tema as filosofias da linguagem de Frege, Wittgenstein e Quine. Dado o caráter transdisciplinar da investigação filosófica, a proposta geral do evento é em um primeiro momento apresentar os aspectos epistemológicos, ontológicos e linguísticos da reviravolta semântica iniciada por Frege e levada a cabo pelo primeiro Wittgenstein; em um segundo momento, discutir as motivações da virada pragmática iniciada no pensamento do segundo Wittgenstein e levada às últimas consequências por Quine.

Esta primeira edição do Evento não contará com apresentação de trabalhos ou minicursos (mas haverá certificado para os ouvintes). O Evento contará com as seguintes palestras:

5/12 –  Frege: da fundamentação da aritmética às bases da reviravolta linguística – Prof.ª Dr.ª Lilia Pinheiro 
6/12 –  A análise da linguagem em Wittgenstein
Prof. Ms. Diego Avendano 
7/12 – Um caminho aos dois dogmas do empirismo de Quine
Prof. Ms. Ralph Heck

O valor da Inscrição: R$ 5,00 Reais.
Carga Horária: 6h/a.
Mais informações: 85 3101.2030 (Centro de Humanidades)
Declaração de Participação: Coordenação de Filosofia – UECE.

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Católica de Fortaleza discute em Simpósio  futuro da Religião

Objetivo é incentivar a pesquisa e estimular o respeito às diversas expressões religiosas presentes na sociedade.  

A Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) promove a décima segunda edição do Simpósio de Filosofia de 18 a 20 de outubro na sede da instituição. Desta vez, com o tema “Filosofia da Religião e os desafios contemporâneos” os debates se encaminharão para discutir o conceito de secularidade, apresentar a filosofia das religiões judaica, cristã e árabe. O evento acontece em parceria com a Livraria Paulus.

Ao todo, dezessete facilitadores, entre mestres e doutores também versarão sobre o futuro das religiões. Destaque para Urbano Zilles, sacerdote católico do clero da Arquidiocese de Porto Alegre. Autor de mais de sessenta livros, Urbano estará lançando na ocasião sua mais nova obra, “Panorama das Filosofias do Século XX”.

O intuito do evento é compartilhar ideias, bem como incentivar a pesquisa e estimular o respeito às diversas expressões religiosas presentes na sociedade.  O encontro é aberto ao público em geral e oferecerá certificado de 35 horas/aula aos participantes.

XII Simpósio de Filosofia da Faculdade Católica de Fortaleza

Data: 18, 19 e 20 de outubro de 2017

Local: Auditório principal da Católica de Fortaleza – Rua Tenente Benévolo, 201, Centro.

Investimento:

Estudantes em Geral: R$ 20,00 (Vinte Reais)
Professores e Visitantes: R$ 30,00 (Trinta Reais) – Certificado de 35 h/a

Inscrições na Faculdade e as vagas são limitadas.

Comunicações e Minicursos: enviar conteúdo até dia 10 de outubro pelo email: fcffilosofia@catolicadefortaleza.edu.br

Mais informações: 85 3453.2150

www.catolicadefortaleza.edu.br

Por: Vanderlúcio Sousa – Seminarista da Arquidiocese de Fortaleza e Jornalista

Papa Francisco e os divorciados recasados: não à rigidez dos fariseus!

Antoine Mekary | ALETEIA

Declarações do último livro-entrevista com o Papa, que será lançado na França

Em uma de suas passagens, o livro-entrevista do Papa Francisco, que será publicado em breve nas livrarias francesas, fala sobre comunhão aos divorciados. Nós traduzimos alguns fragmentos do livro “Política e sociedade”, escrito pelo sociólogo francês Dominique Wolton, adiantados com exclusividade pela revista de fim de semana do jornal parisiense Le Figaro.

Há um grande perigo em condenar somente a moral “da cintura para baixo”

Papa Francisco: Mas nós, os católicos, como ensinamos a moral? Não podemos ensinar apenas preceitos como: “Você não pode fazer isso, tem que fazer aquilo, você pode, você não pode”. A moral é uma consequência do encontro com Jesus Cristo. Para nós, católicos, é uma consequência da fé. E para os demais, a moral é uma consequência do encontro com um ideal, ou com Deus, ou consigo mesmo, mas com a melhor parte de si mesmo. A moral é sempre uma consequência.  […] Algumas pessoas preferem falar de moral em homilias ou em cursos de teologia. Há um grande perigo para os pregadores, que é cair na mediocridade… condenar somente a moralidade – desculpe-me – “da cintura para baixo”. Mas os outros pecados, que são mais graves, o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida… não se fala tanto deles.

“É possível dar comunhão aos divorciados?”

 […]Algumas pessoas com tendências demasiadamente tradicionalistas combatem isso, dizendo que esta não é a verdadeira doutrina.

Sobre a questão das famílias irregulares, eu disse no capítulo oitavo [da Exortação Apostólica Amoris Laetitia] que há quatro critérios: acolher, acompanhar, discernir as situações irregulares e integrar. Não se trata de uma norma rígida. Isso abre um caminho, um caminho de comunicação.

Imediatamente, me perguntaram: “Mas é possível dar a comunhão aos divorciados?”. E eu respondo: “Conversem com o divorciado, com a divorciada, acolham essas pessoas, acompanhem-nas, integrem-nas, diferenciem as situações!”

Infelizmente, nós, os sacerdotes, estamos acostumados com normas rígidas. E assim é difícil para nós “acompanhar o caminho, integrar, discernir, dizer coisas positivas”. Essa é minha proposição […].

Na realidade, o que acontece é que as pessoas dizem: “Não podem comungar”, “Não podem fazer isso ou aquilo”: essa é a tentação da Igreja. Mas não, eu não! Nós encontramos esse tipo de proibições no drama de Jesus com os fariseus. É a mesma coisa! Os grandes da Igreja são os que têm uma visão que vai além, os que compreendem: os missionários.

Fonte: Aleteia – Temas e Implicações, 4/9/2017 (Jesús Colina)

Debates e Ideias: O salesiano Almir

Por : José Maria Bonfim de Morais – Médico cardiologista, aluno do Curso de Bacharelado em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza

Em 2004, perdíamos um grande amigo e colega cardiologista, Das Chagas Lima. Morto, em Petrolina. Voltamos à Igreja da Piedade, donde havíamos partido para Carpina, numa madrugada fria e saudosa. Das Chagas gráulio, ágil e brilhante, de repente tornou-se saudade. O celebrante era o Antônio Almir Magalhães, que na homilia falou de sua passagem pelos salesianos. Há 5 anos, voltei a me encontrar com o Pe. Almir, agora como reitor do Seminário S. Jose e diretor da Faculdade Católica de Fortaleza. Iniciava meu bacharelado em Teologia. Simples, afável, sorriso curto, jeito de mineiro, fomos nos identificando. Iniciamos e percorremos durante um período das nossas vidas os mesmos caminhos. Trilhamos os mesmos passos. Introduzidos no universo salesiano, tivemos o mesmo céu, e veneramos o mesmo pai: Dom Bosco.

Em 12 de junho, voltei a me encontrar com Pe. Almir, no seu natalício. Eu enamorado de Eliane. Ele enamorado de sua vocação sacerdotal. Fez da Igreja a sua esposa. Ama-a com ardor missionário. Zela o seu caminhar apostólico com simplicidade e piedade. Valoriza a sua missão de pastor. Face de uma Igreja primaveril e de partilha. Cada tijolo prensado no amor, colocado lado a lado no pórtico da caridade. Dom Bosco é um dos maiores santos da Igreja Católica. Não é santo social. Não é da teologia da libertação. Bosco era animado por um fogo de amor para com os inúteis da sociedade. No seu oratório juntava os meninos perdidos, esquecidos, largados pela sociedade.

Pe. Almir – Reitor do Seminário de Teologia / Arquidiocese de Fortaleza

Dom Bosco foi a Madre Teresa de Calcutá do século XIX. O amor de Dom Bosco para com os pobres era para fazê-los dignos, aproximá-los de Deus. Almir fez seu estágio pastoral em Aratuba. Se lá em Carpina, sob a luz de Dom Lustosa, se encheu de caridade, em Aratuba, no alto se encheu das mensagens do Sermão da Montanha. Se no antigo testamento tínhamos a tábua da lei, no novo temos o evangelho da misericórdia. Onde os Makarios, bem-aventurados são aqueles que Dom Bosco tanto amava: os pobres, os perseguidos e injustiçados. Almir na sua passagem pelas academias romanas, não apagou a sua feição de cuidar dos mais pisados e sofridos da sociedade. Dom Bosco, “Da me animas et cetera tolle”, dá-me almas e pode ficar com o resto. Dom Bosco formou 6 mil sacerdotes. Almir não forma tanto, mas os forja espelhado na sua alma amorosa simples e despojada.

Fonte: Publicado no Jornal Diário do Nordeste – DEBATES E IDEIAS – opiniao@diariodonordeste.com.br  / 17 de junho de 2017.

 

Campanha pelos biomas brasileiros

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       A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza anualmente a Campanha da Fraternidade (CF). Trata-se de um período do ano em que um tema social relevante é evidenciado, objetivando a reação da sociedade em relação a problemas concretos que precisam de atenção, reflexão e ação.
A CF 2017 tem como tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e como lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15). Neste ano, a CNBB põe em debate os biomas do País que de acordo com o texto-base são definidos como “a vida que se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície e animais”. O estabelecimento que evidencia a questão dos biomas se justifica pela atenção que o tema merece.

           O Brasil em sua vasta dimensão territorial possui seis biomas: a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Pampa. Cada determinação se caracteriza, pois, pela dinâmica de semelhança que forma o ecossistema, isto é, pela similaridade de vegetação, de clima e formação histórica.

Ora, não é de hoje que a natureza padece de uma profunda crise ecológica que se manifesta também na depredação dos biomas. Para Manfredo Oliveira, a crise ecológica é uma dentre várias específicas mutuamente entrelaçadas, descambando assim numa crise civilizacional, uma crise ético-cultural. A devastação dessas áreas naturais implica diretamente na ação humana e os efeitos de degradação da vida e da natureza denotam um grande risco em eminência patrocinado e mantido pela meta do homem de cada vez mais aumentar o domínio sobre a natureza e a sociedade.

        Nessa mesma linha na encíclica Laudato si’, o Papa Francisco adverte: “Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído… a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão”. Nesse sentido, a crise civilizacional atinge o sentido humano do mundo construído por essa mesma humanidade, o que se torna um desafio contemporâneo.

       Com efeito, é de suma importância conceber que do fato da crise ético-cultural derivar a crise ecológica, as coisas estão conectas. Prova disso é a exposição feita pelo Papa na referida encíclica de uma “ecologia integral”, ou seja, uma proposta que contempla a íntima relação dos problemas atuais que incluem dimensões humanas e sociais. A fragmentação do conhecimento e a divisão social do trabalho continuam a gestar uma visão amplamente segmentada dos problemas. Em última instância o ensejo de uma conjugação efetiva que reconheça conexões de abrangência de diferentes ramos dos saberes se apresenta como uma empreitada desafiante.

     Noutros termos: é preciso observar as relações das coisas. No caso dos biomas, como a crescente desertificação da Caatinga, o desmatamento da floresta Amazônica, e a agressão a Mata Atlântica influem na vida humana e dos animais? Como a vontade política poderia diretamente implementar medidas de preservação? Como incorporar o conceito de sustentabilidade nas atividades econômicas? A proximidade que compõe esses questionamentos representa justamente a estrita conectividade dos mesmos.

     As respostas para tais perguntas se colocam no caminho da CF 2017 rumo a uma conscientização e mobilização civil em prol do cuidado com nossa casa comum que nos sustenta como dizia Francisco de Assis.

servletrecuperafotoFelipe Augusto Ferreira Feijão, estudante de Filosofia  na Universidade Federal do Ceará – UFC.

 

ENEAGRAMA: autoconhecimento e espiritualidade para crescer

O Padre Domingos Cunha ajuda pessoas a se redescobrirem por meio
de uma tradição que ele defende estar alheia à religião, o eneagrama.

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Foto: O Povo (Páginas Azuis)

Emblemático o Natal coincidir com a passagem dos anos. Por isso, talvez, tanta gente se perceba reflexiva nestes dias. Afinal, o que representa este momento? Palpite: a possibilidade de reconstruir-se, renovar-se, renascer em si. Há 21 anos, o padre e escritor português Domingos Cunha busca ajudar pessoas nesse processo de autoconhecimento e de mudança. Ele se ancora no eneagrama, uma tradição milenar representada por um círculo com uma estrela de nove pontas, sugerindo nove tipos de personalidade: perfeccionista, prestativa, bem-sucedida, romântica, observadora, questionadora, sonhadora, confrontadora e preservacionista.

Contudo, para compreender o que padre Domingos ensina, é preciso ir ao seu encontro sabendo que ele é homem, antes de ser sacerdote. Nós não fomos assim. Chegamos ao local da entrevista, na Parquelândia, cheias de expectativas que foram frustradas ao sermos recebidas por um homem de sorriso tímido, baixo, barba recém-cortada, vestindo jeans e camisa de botão, que preferia falar em espiritualidade a discorrer sobre religião. Com a didática de um professor, ele explica, abaixo, o porquê da postura.

OPOVO – O senhor é fundador do Instituto Eneagrama Shalom, uma comunidade de padres e outros colaboradores que trabalham a formação humana a partir do eneagrama. O que é essa tradição e como ela pode ajudar as pessoas?

PADRE DOMINGOS CUNHA – O eneagrama procura estudar o comportamento da pessoa, por que a gente tem determinadas reações, por que cada pessoa é diferente, por que temos reações que são repetitivas. Isso é parte do que o eneagrama chama de personalidade: um conjunto de mecanismos que a gente desenvolveu desde a infância para sermos aceitos pelos adultos, para nos proteger. E o eneagrama fala também de essência. Essência é a individualidade de cada um: aquilo que é genuíno, autêntico, original. No fundo, a personalidade foi desenvolvida para proteger a essência. Só que, normalmente, a personalidade acaba abafando a essência. Nós chegamos à vida adulta e muitas vezes acabamos vivendo a partir da personalidade, repetindo esses mecanismos. Qual é o grande objetivo do eneagrama? Ajudar a pessoa a descobrir a personalidade, que é o que está mais próximo, e flexibilizar a personalidade para que a essência apareça. É um mapa que a gente chama de psicoespiritual. Está acima de questão religiosa, tem um sentido de realização, felicidade, horizonte.

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OP – Como é feito esse teste?

PADRE DOMINGOS – A gente não faz teste. O objetivo é que cada pessoa tome consciência. Nos cursos, a gente dá cada um dos elementos e a pessoa vai se identificando, descobrindo. Isso, aliás, é um princípio que faz parte do código de ética da Associação Internacional de Eneagrama, que o conhecimento seja auto descoberto. Quando é a própria pessoa a descobrir, o efeito que isso tem na vida dela é muito maior. Normalmente, fazemos o curso em três módulos. O primeiro é pra pessoa identificar qual o seu tipo de personalidade, o seu perfil. O eneagrama propõe nove padrões de personalidade. Enea significa nove e grama vem do grego, que é gráfico, figura. O primeiro passo é a pessoa identificar seu padrão predominante. Nós temos características dos nove, mas tem um que predomina. A gente costuma dar o exemplo de uma casa redonda com nove quartos e nove janelas. Nós somos essa casa. Temos nove formas de estar em vida e temos nove formas de olhar o mundo, os acontecimentos, mas cada um de nós estagnou num quarto. A gente se sentiu mais confortável, mais cômodo, e acabou ficando.

OP – Se os quartos são a personalidade, então as janelas são…?

PADRE DOMINGOS – Tudo faz parte da personalidade. O quarto seria mais o jeito de ser e de estar na vida. A janela seria a maneira como eu enxergo os outros, o mundo. O primeiro passo é identificar qual o seu padrão predominante.

A partir daí você já tem a compreensão de por que eu tenho determinados impulsos, por que tenho determinadas qualidades, dificuldades, isso já me dá um quadro sobre o jeito como eu sou. Mas numa segunda parte, a gente trabalha caminhos de crescimento. Como eu posso sair do meu quartinho de estimação para visitar outros quartos? E no terceiro módulo, a gente trabalha mais a dimensão da essência.

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OP – A gente pode dizer que a personalidade é resultado das experiências que a gente foi vivendo e que, em algum momento, se a minha personalidade me incomoda, posso mudar?

PADRE DOMINGOS – Mudamos quando tomamos consciência do preço que pagamos pela personalidade. Claro que a personalidade, durante muito tempo, foi útil. E ainda é. O problema é que somos muito mais. Somos essência e temos personalidade. A personalidade é uma habilidade, mas me limita, traz sofrimento tanto interno como nos relacionamentos e a nível profissional. Imagine uma pessoa que trabalha num escritório de contabilidade. Isso vai lhe dar excelência.

Mas imagine essa pessoa, à noite, em casa com a família, e ela continua a ser exigente, organizada, disciplinada, correta, querendo melhorar, aperfeiçoar.

Daqui a pouco ninguém aguenta. Então, não se trata de ser bom ou mau. Se trata de tomar consciência. Se eu tenho consciência, vou perceber quando é oportuno usar a personalidade ou não. Se eu não tiver consciência, vou repetir o padrão sempre.

OP – Mas tomar consciência não pode dar brecha para a acomodação?

PADRE DOMINGOS – Claro. Esse é o perigo. Por isso achamos que, no eneagrama, uma das piores distorções é essa, quando a pessoa fica só em descobrir a personalidade. Ela pode até usar isso pra se justificar, entende? Imagine, por exemplo, uma personalidade que tem a marca da preguiça. Isso, durante muito tempo, foi ótimo pra pessoa. Foi uma zona de conforto. E ela pode se apegar a isso. Mas durante o processo, a gente vai ajudar a pessoa também a criar condições para que ela tome consciência das oportunidades que perdeu.

OP – A gente vive um contexto social em que as pessoas adoecem muito por depressão. O senhor acha que o eneagrama se torna necessário nesse momento?

PADRE DOMINGOS – Sem dúvida. Acho que talvez uma das grandes buscas, angústias do nosso tempo, é essa. A questão da depressão tem muito a ver com estresse, mas, sobretudo, com a falta de sentido da vida. Como o eneagrama me ajuda? Primeiro me ajuda a perceber esses níveis de estresse. A gente trabalha caminhos de crescimento, uma das ferramentas mais práticas do eneagrama. Na medida em que eu percebo os sintomas que estão me levando para o estresse, consigo interferir nisso. Se eu não tiver consciência, a vida vai me levar. Me arrastar.

OP – Essa técnica, então, supriria a necessidade de uma terapia com um psicólogo?

PADRE DOMINGOS – Não. São coisas diferentes. Em alguns casos, muitas pessoas, a partir do eneagrama, despertam para essa necessidade, até para dar continuidade e fazer um trabalho mais profundo. Poderíamos dizer que o eneagrama é um trabalho mais de autoconsciência, profundo, prático. Quando a pessoa tem o conhecimento do eneagrama, no processo terapêutico seu desenvolvimento é muito maior. E por outro lado o processo terapêutico ajuda a pessoa a assimilar as descobertas do eneagrama.

OP – A religião ajuda?

PADRE DOMINGOS – Eu diria que a espiritualidade. Sem dúvida ajuda. Tem um pensamento de (Blaise) Pascal, um filósofo que gosto muito de citar, que diz: “espiritualidade sem autoconhecimento pode tornar-se presunção. E autoconhecimento sem espiritualidade pode levar ao desespero”. Quer dizer, a pessoa que busca a espiritualidade sem ter autoconhecimento, daqui a pouco se acha iluminada e esquece que tem os pés no chão. E, por outro lado, autoconhecimento sem espiritualidade pode levar ao desespero porque, num processo de autoconhecimento, a pessoa se depara com tanta coisa dentro dela que pode “entrar em parafuso”. O eneagrama ajuda a gente a perceber essas paixões, o medo, a raiva, a inveja, mas ajuda a descobrir que, além disso, há algo mais profundo que é essa dimensão transcendente, divina, que é o que, no eneagrama, chamamos de essência.

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OP – Como o eneagrama chegou às empresas?

PADRE DOMINGOS – No ambiente corporativo, o foco (do eneagrama) é o desenvolvimento da pessoa. Relacionamento interpessoal, trabalho em equipe, liderança, comunicação. O eneagrama me dá o conhecimento de qual a palavra certa pra você. Então isso, em termos de liderança, motivação, é uma grande ferramenta. Mas o eneagrama também tem uma utilização muito grande na educação. Às vezes os pais dizem: “por que meus filhos são tão diferentes? Onde que eu errei?” Não tem negócio de errar, cada um é diferente. Em vez de eu ficar reforçando a personalidade, posso ajudar a criança a desenvolver o melhor dela.

OP – No ritmo que a gente está vivendo, é como se o eneagrama nos lembrasse a importância de olhar para si e paras nossas relações com o outro, inclusive para chegar ao objetivo comum, que é a produtividade?

PADRE DOMINGOS – Tem um pensamento grego que diz: “quem pensa a curto prazo, cultiva cereais. Quem pensa a médio prazo, planta árvores. Quem pensa a longo prazo, cuida de pessoas”. Acho que muitas empresas estão despertando pra isso, pra necessidade de trabalhar as pessoas. Se a pessoa não tiver um trabalho interno, uma consistência interna, trabalhar a sua individualidade, não aguenta a pressão. E aí muitas empresas já estão percebendo que se não investirem no ser humano não vão ter resultado.

OP – Existem aplicações do eneagrama que são consideradas incompatíveis com a doutrina cristã?

PADRE DOMINGOS – A origem do eneagrama tem um fundamento cristão profundo, que, basicamente, é a questão das paixões, dos pecados capitais e das virtudes. Então, não há incompatibilidade nenhuma. É como se o eneagrama ajudasse a pessoa a fazer aquele itinerário que o cristianismo propõe.

OP – E como foi o seu primeiro contato com o eneagrama?

PADRE DOMINGOS – Cheguei a Fortaleza em 1985. Fevereiro. E em julho um amigo dos Estados Unidos veio passar férias aqui. Ele é padre. Tinha conhecido o eneagrama nos Estados Unidos. Ele numerou todos nós, disse qual era o tipo de cada um, errou em todos… (risos) porque não dá pra fazer isso sem instrução, e aí falou que nossas comunidades, nós somos uma comunidade de padres, estavam mal divididas, porque o tipo tal não dava certo com o tipo tal. Nós achamos aquilo tão grotesco, de rótulo, que ninguém quis saber. Passei cinco anos aqui (em Fortaleza) e depois fui pra Belo Horizonte. Na época que morei em BH, ouvi falar do eneagrama de outro jeito. Na perspectiva do autoconhecimento, relacionamento, compreensão dos outros. Aí me entusiasmei e comecei a estudar. Era a chave que eu estava procurando pra me entender. Depois voltei pra Fortaleza e foi quando organizamos os cursos para que as pessoas pudessem fazem essa descoberta de maneira mais processual, mais pedagógica, em vez de ficar só na leitura.

OP – Já que o senhor também passou por esse processo de autoconhecimento, qual é seu tipo predominante?

PADRE DOMINGOS – Sou tipo oito. O oito, na personalidade, tem uma necessidade inconsciente de ter o controle, de se sentir uma pessoa forte, poderosa. A essência é inocência, capacidade de confiar, se entregar. Na infância, vivi experiências que interpretei que minha mãe tentou me enganar (risos). E como é a interpretação da criança? “Poxa, se minha mãe, que é a pessoa em que eu mais confio, fez isso comigo, imagina os outros?” Então, a partir daí, comecei a desenvolver uma armadura. Agora tenho que ser forte, passar uma imagem de respeito, pras pessoas não me enganarem de novo. Se eu for fraco, vão me fazer de besta.

OP – É possível transitar por outros tipos?

PADRE DOMINGOS – Eu tenho dentro de mim os nove quartos. Num processo de identificação, às vezes a pessoa fica em dúvida entre dois, três, porque ela tem características de vários. O grande desafio é sair daquela rigidez do nosso padrão, flexibilizar e conseguir andar por outros quartos. Nós percebemos que em cada momento temos atitudes diferentes. Aquela história que diz que a pessoa madura é aquela capaz de dar respostas diferentes em situações diferentes. Uma pessoa que dá sempre a mesma resposta está repetindo um padrão, não tem liberdade.

OP – É uma busca pelo autoconhecimento, mas que não se encerra em mim. Como o outro, então, me ajuda nesse processo de descoberta?

PADRE DOMINGOS – No fundo, somos espelhos do outro. Eu descubro que sou tipo oito e que você é tipo dois. Você é o espelho do melhor de mim. Ou descubro que você é tipo cinco. Ah, você é o pior de mim. Isso ajuda a tomar consciência porque eu não consigo ver essas coisas em mim, são inconscientes, então, em contato com os outros, vou descobrindo. E por isso os beneficios mais imediatos do eneagrama a gente percebe nos relacionamentos. Casal. As pessoas passam a perceber por que o outro tem atitudes diferentes. Lembro que uma vez, num curso, eu expliquei determinado tipo, aí no intervalo pro cafezinho uma senhora chegou pra mim e disse: “padre, esse tipo que o senhor explicou é a cara do meu ex-marido. Igualzinho. Você falando e eu vendo a cara dele. E sabe o que eu to pensando? Eu me separei há um ano e meio e agora tô achando que se tivesse conhecido esse negócio antes, não precisava me separar. Porque eu pensei que ele era desse jeito porque não gostava de mim, mas agora eu tô vendo que o pobre nem tem culpa!”.

OP – Então, o que o senhor acha que o eneagrama ensina? Quais valores perpassam por ele?

PADRE DOMINGOS – Eu diria que o principal é compaixão. Primeiro compaixão por mim, por nós mesmos. Porque às vezes nós não nos aceitamos do jeito que somos. E, segundo, compaixão pelo outro, entender como o outro é e por que ele é daquele jeito, sem julgamento.

OP – Num momento em que o mundo anda descrente de tudo, esse autoconhecimento renova a fé?

PADRE DOMINGOS – Uma das coisas bonitas que eu tenho encontrado nesse trabalho do eneagrama é isso. Pessoas que, através do autoconhecimento, despertam para a necessidade da espiritualidade. O cara se diz ateu, vai buscar o autoconhecimento e desperta para a necessidade da espiritualidade, da fé.

OP – A espiritualidade não é religião.

PADRE DOMINGOS – Não, não está vinculada. Quando o foco é o ser humano, as diferenças ficam pequenininhas. Quando a gente procura trabalhar aquilo que é o melhor de cada um, não importa a sua profissão, a sua vida acadêmica, religião que segue.

OP – Como o senhor entende o atual momento da Igreja Católica, com o papa Francisco?

PADRE DOMINGOS – É um momento marcado pela sensibilidade profunda da pessoa dele, por essa dimensão da compaixão e de resgatar o evangelho como uma linguagem de acolhimento e de libertação da pessoa, não como peso de normas ou tradições. É fantástico. Encantador pro nosso tempo.

Perfil

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Domingos Albino dos Santos da Cunha
, 53, nasceu em Viana do Castelo, no norte de Portugal. Estudou filosofia na Universidade Católica Portuguesa, em Braga. Chegou a Fortaleza em 1985 para dar continuidade à formação e integrar uma comunidade de padres que trabalha a evangelização de jovens: a Comunidade Shalom, que não é a mesma fundada por Moysés Azevedo. Na Capital, estudou Teologia, mas foi ordenado padre em Portugal, em 1988. Hoje, além de ensinar eneagrama, celebra missa na Igreja São Judas Tadeu, no São Gerardo.

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ENEAGRAMA

Tipo 1: busca valorização por meio do bom comportamento.
Tipo 2: ajuda e agrada aos outros à espera de atenção.
Tipo 3: crê que resultados trazem a aprovação das pessoas.
Tipo 4: sente tanto que absorve emoções alheias como se fossem suas.
Tipo 5: observador, teme não ser visto pelas pessoas ou ser invadido por elas.
Tipo 6: pensa em tudo o que pode acontecer para se precaver.
Tipo 7: se mostra divertido para não lidar com sofrimento.
Tipo 8: busca ser forte e tem necessidade de ter o controle.
Tipo 9: tende a anestesiar a a raiva passando imagem de tranquilidade.

Fonte: Entrevista com Padre Domingos Cunha, Jornal O Povo (Páginas Azuis), Fortaleza, 26/12/2016.

 

 

Mídias Digitais em 2017: evolução ou retrocesso?

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O que impede seu sucesso em 2017? O Whats App, por exemplo, pode ser
seu principal funcionário comercial ou sua maior dispersão

Estamos mais ignorantes ou, na verdade, perdemos o controle sobre nossa evolução? A virada de ano me marcou pela quantidade de reclamações que ouvi sobre emprego, salário, clientes e, claro, esse desenfreado galope digital que deixa muita gente para trás. É irresponsável negar todos os problemas atuais do País e dizer que o universo digital vai nos salvar. Ele não vai! E sei que perderei clientes por essa minha afirmação. Mas, antes de mentir sobre um milagre digital, prefiro dizer uma verdade inconveniente para começarmos nosso 2017: nós somos a nossa verdadeira crise.

As pessoas caem no erro de negar as evoluções tecnológicas simplesmente porque as desconhecem, em vez de se incomodarem com a ignorância e buscarem superá-la. Paralisam-se na primeira desculpa que suas mentes encontram e depois reclamam novamente que tudo é muito complexo. São do tipo que acordam todos os dias com o celular ao lado do travesseiro, perdem preciosos minutos da manhã olhando o Facebook sem qualquer propósito, mas criam uma enorme resistência para entender como essas ferramentas se tornaram tão ricas e alguns profissionais que trabalham com isso mais bem-sucedidos que elas.

O WhatsApp, por exemplo, pode ser seu principal funcionário comercial, como também sua maior dispersão. Já o Instagram, de espelho de Narciso, é também ímã de clientes. Evoluir na profissão continua sendo uma questão de escolha. Mas dá trabalho pensar e agir em prol do próprio futuro. Para muitos, ir apenas conforme a correnteza é mais cômodo. O problema é que nunca esperam que o mar possa subir e afogá-los por não saberem nadar.

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A crise é um fato, mas oportunidades existem para quem está preparado. Passamos o ano ouvindo que precisamos ter inglês na ponta da língua, entender de marketing digital e sermos mais qualificados. Encontramos desculpas como a falta de tempo ou que não temos dinheiro. Viramos o ano reclamando que o mercado não ajuda e falando mal de alguns que conseguiram superar. A única dúvida é quando iremos perceber que o único responsável pelo nosso futuro somos nós mesmos, que nada pode nos impedir senão as nossas próprias fraquezas e que, mesmo em crise, existem também as chances de ganhar com ela. Esperar que tudo caia do céu gasta a mesma quantidade de tempo que pensar e agir, você decide. Mas saiba que, independente da área de mercado, tecnologia é um grande diferencial apenas para quem mergulha, ao invés de só reclamar.

Se esses textos que escrevi em 2016 lhe fizeram sentido, mas você ainda não se moveu, aproveite seu 2017 para dar finalmente start. Quando você começa e o fracasso não é mais uma opção, o sucesso torna-se inevitável. Bem-vindo ao novo ano!

Por: W. Gabriel
Mestre em marketing, professor e consultor de marketing em mídias digitais
Contato: wgabriel@wgabriel.net
Fonte: Jornal O Povo, Opinião, 12 de janeiro de 2017