Serviço à dignidade

1-2Pe. Manfredo Oliveira, filósofo e professor da UFC

No período em que se preparam para a celebração da festa da Páscoa, os católicos são convidados este ano a refletirem sobre sua vocação e sua missão na sociedade o que significa dizer que a fé cristã diz respeito a todas as dimensões da vida e não apenas ao âmbito privado. Precisam em primeiro lugar renovar a consciência de que sua fé é vivida no seio de sociedades que são configuradas de modo diferenciado através dos tempos. Consequentemente os desafios para a vida humana são diferentes o que implica que os crentes façam um discernimento das situações para continuar servindo à sociedade à luz dos critérios do Evangelho no respeito radical a um mundo social que se entende autônomo frente a qualquer interferência de tutela religiosa.

Sabem que vivem hoje em sociedade que é produto da revolução técnico-científica, inserida no processo de globalização do capital que aprofundou os processos de interconexão e a interdependência entre os povos de forma assimétrica sem controle a nível global. Nossa sociedade já é uma sociedade pós-industrial em que o conhecimento cada vez mais se torna força produtiva decisiva e uma sociedade profundamente marcada pela revolução comunicativa gerada pela última revolução tecnológica que confronta as pessoas com diferentes concepções da vida gerando um pluralismo profundo.

É neste contexto que se põem em primeiro plano no texto-base da Campanha da Fraternidade os critérios que devem orientar as ações na sociedade: a dignidade da pessoa humana, o bem comum e a justiça social. Isto inclui antes de tudo uma atenção especial aos pobres e sofredores com o objetivo de tornar mais humana a família humana como diz o Concílio Vaticano II. Isto significa dizer que “o serviço prestado pela Igreja à vida compreende a proteção ao ser humano, especialmente aos mais fragilizados, e aos seus direitos, universais e inalienáveis”.

Já aqui se revela uma das questões mais centrais de nossa vida social hoje no Brasil. Os direitos na realidade articulam as condições de efetivação da dignidade sem as quais a vida humana é ameaçada em seu cerne. Apesar de todos os avanços, há direitos básicos a que muitos entre nós ainda não têm acesso: direito à água limpa, potável e ao saneamento básico, direito à moradia, direito à liberdade, direito à manifestação política, direito à educação, direito a um meio ambiente saudável, direito à saúde e à segurança, direito ao trabalho, direito a uma vida livre de preconceitos em relação à condição social, raça, gênero, orientação sexual, cultura, confissão religiosa. Neste contexto põe-se no texto uma afirmação que é simplesmente decisiva: “a melhoria das condições de vida dos brasileiros ainda não se traduziu em melhorias nas “condições estruturais” de vida da população, sobretudo dos necessitados”. Sinais são apresentados: luta pela reforma agrária e condições de trabalho no campo; demarcação dos territórios indígenas e das comunidades quilombolas, inclusão social de milhares de excluídos. Todas estas situações envolvem situações estruturantes fundamentais do direito à vida e ao reconhecimento da dignidade humana.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Domingo, 22/02/2015 (Contato do autor: manfredo.oliveira2012@gmail.com).

Francisco longe das heresias

papa

Bem aventurados aqueles que acolhem e se deixam conduzir pela Palavra de Deus, tendo-a como eterna e sagrada, na qual se edificam sonhos e projetos de vida. O Papa Francisco ao comentar o Evangelho da casa edificada sobre a rocha, ou sobre a areia, na missa do dia 4/12/2014, disse que “Não basta se declarar cristão, é preciso agir”, deixando claro que o cristão não pode ser de aparência, mas deve colocar em prática o amor de Jesus, mostrando-nos portanto, que a missão de santificar, ensinar e governar tem sempre como fundamento a Boa Nova da salvação, anunciando Jesus Cristo, o Evangelho por excelência, maior e melhor dom inigualável de riqueza, que Deus Pai fez descer do céu, abrindo nossos olhos, quando afirma: “A Igreja é chamada a aproximar-se de todas as pessoas, começando pelos mais pobres e aqueles que sofrem”

No Jornal El País em 3/12/2014 o jornalista Juan Arias fala que os burocratas da Igreja o acusam entre dentes de que fala pouco de Deus e muito dos homens, sobretudo, dos mais marginalizados pela sociedade, sendo cada vez menos amado por setores da hierarquia da Igreja do que pelas pessoas, dizendo que Francisco gosta menos de muitos devotos do que da caravana humana dos que sofrem. Para ele, bastam as páginas dos evangelhos que estão mais povoados de histórias de marginalizados e excluídos do convívio social do que de glória e triunfos divinos, indicando que o Santo Padre cita menos documentos e encíclicas. Em verdade Francisco tem absoluta convicção de que a promessa do Pai se concretiza no Filho Jesus Cristo que “sendo rico, se fez pobre, a fim de nos enriquecer com sua pobreza” (cf. 2Cor 8, 9), e que “Os orgulhosos, os vaidosos, os cristãos de aparência” – sublinhou o Papa Francisco – “serão derrubados, humilhados”, enquanto “os pobres serão os que vão triunfar, os pobres em espírito, aqueles que diante de Deus não se sentem importantes, os humildes, e que realizam a salvação, colocando em prática a Palavra do Senhor”.

Ainda, segundo o referido colunista, o Sumo Pontífice opta em falar mais da criatura humana como imagem e semelhança de Deus do que da divindade, o que começa a ser visto como uma heresia. Sinceramente, não compreendo a relação disto com uma heresia, sendo que Francisco tem manifestado posições que carregam a marca redentora do absoluto de Deus, associado e intimamente unido a Jesus de Nazaré, que foi pregado aos trinta e três anos de idade numa cruz, por ter percebido os sinais dos tempos e sido exagerado em defender os empobrecidos, antevendo neles seu próprio aniquilamento, sua suprema dor e angústia, em uma realidade misteriosa, da qual não se pode dissociar o humano do divino.

Retomando o assunto anterior do Bispo de Roma, ao assegurar que “não basta pertencer a uma família muito católica, a uma associação ou ser um benfeitor se, depois, não se faz a vontade de Deus. ‘Muitos cristãos de aparência caem nas primeiras tentações’, afirmou, porque não têm ‘substância’, construíram sua casa sobre a areia”.

Dentre as inúmeras e inspiradoras frases de Francisco, duas em especial, relacionadas a este contexto, vêm à minha mente neste instante: “Vivemos na religião mais desigual do mundo”; “A paz é um bem que supera qualquer barreira, porque é um bem de toda a humanidade”. Uma construção na qual reina a paz precisa ser sólida e segura no seu alicerce, indo na direção do Romano Pontífice, deixando claro que os cristãos jamais poderão se distanciar dos seus ensinamentos, ao encerrar a referida homilia, na Casa Santa Marta, citando São Bernardo de Claraval: “Pense, homem, o que será de você: alimento para os vermes”. “Os vermes irão nos comer, a todos” – recordou o Papa – “Se não temos esta rocha, vamos acabar pisoteados”: “Neste tempo de preparação para o Natal pedimos ao Senhor para sermos firmes na rocha que é Ele, a nossa esperança é Ele.

Todos nós somos pecadores, somos fracos, mas se colocarmos a esperança n’Ele podemos avançar. E esta é a alegria de um cristão: saber que n’Ele há esperança, há perdão, há paz, há alegria. E não colocar a nossa esperança em coisas que hoje existem e amanhã não existem mais”. Assim seja!

imagesARTIGO: FRANCISCO LONGE DAS HERESIAS – Geovane Saraiva, Escritor e Padre da Arquidiocese de Fortaleza.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 14 de dezembro de 2014.

O Advento e o Deus que se fez homem

O-advento-e-os-valores-essenciaisNo momento em que escrevo esta abordagem, estamos bem no início de um período do Ano Litúrgico conhecido como advento; compõe-se de quatro domingos (30.11, 7,14 e 21 de dezembro) e a tônica, a espiritualidade que marca este período é o da vigilância, para, como cristãos, nos prepararmos bem para este grande evento da história da humanidade que chamamos de Natal e que é o nascimento do menino-Deus, o Deus que armou sua tenda entre nós (cf. Jo, 1,14).

Entretanto, alguns ingredientes merecem ser refletidos nesta reflexão e cito três: a) Qual a proposta, a espiritualidade cristã para a celebração deste evento? b) A cultura que temos a respeito do período e c) visão do mercado sobre o momento.

A proposta que todo cristão deveria encarar nesta preparação se fundamenta no termo vigilância. No primeiro domingo do advento o termo é colocado como mote não só para o período mas para a vida do cristão e aparece no Evangelho de Marcos 13, 33-37 que melhor deve ser lido no quadro dos capítulos 11,20 – 13, 1-2; Jesus está em Jerusalém e aparecem aí as polêmicas mais radicais com as lideranças judaicas. No final deste dia, já no Jardim das Oliveiras Jesus oferece a um grupo de discípulos um amplo e enigmático ensinamento que ficou conhecido como o discurso escatológico, no estilo literário apocalipse. Neste discurso Jesus dá indicações aos discípulos acerca da atitude a tomar diante das dificuldades que marcarão a caminhada histórica da comunidade cristã.

Ora, as primeiras gerações cristãs estavam na verdade com ideias fixas pela segunda vinda imediata de Jesus, queriam encontrar-se com ele o quanto antes. Qual o problema? O tempo passava e a vinda do Senhor demorava. Perigo? O entusiasmo pela proposta de Cristo poderia se enfraquecer, apagar-se. Preocupação? Ao chegar, Jesus encontrasse os cristãos dormindo, não fisicamente, mas acomodados e sem a vivência cristã. Daí a vigilância tornou-se uma palavra-chave porquanto os evangelhos repetem muito: cuidado! Ficai atentos! Vigiai! O que significa isto para o período do advento? É um convite a viver de maneira lúcida, afinal de contas o ideal cristão é não agir como todo mundo. É um chamado a tomar uma decisão hoje e confrontar sempre a sua vida pessoal e comunitária com a esperança cristã. A missão é exigente e a comunidade vai precisar de motivação e por isso o apelo à vigilância e à fidelidade.

O segundo ingrediente é a cultura que foi se consolidando no seio da sociedade em relação ao natal. Está no ínsito de nossa alma as celebrações, as confraternizações, os presentes… Parece que disto não podemos fugir, não podemos ser hipócritas. O que precisamos num lento processo educativo, nos reeducar para, mesmo diante desta cultura, recuperarmos a espiritualidade cristã não só neste período, mas na vida, em todos os momentos. Seria respeitar a cultura e redimensioná-la para uma vida absorvendo processualmente o mínimo possível, o terceiro ingrediente a seguir.

O terceiro ingrediente é a superposição a uma cultura mais “espontânea” manipulada pelo mercado, ávido por lucro num momento como chamam de período de grande aquecimento das vendas. Neste sentido é que parece que a proposta do aniversariante vai em grande parte para a lixeira. Ele acaba não sendo o centro, e quando acontece é apenas de maneira simbólica, representativa, não iluminando as vidas para uma presença testemunhal na sociedade, nos ambientes que frequentamos a partir dos valores propostos de justiça, solidariedade, espírito comunitário, partilha.

Tudo acontece em clima de festa e não há erro nisto, mas como momento, no dia a dia há uma insensibilidade quanto ao sofrimento dos outros (cada um desfrutando o máximo o seu bem estar), faltam o princípio misericórdia e outros aspectos, para que o cristianismo possa se tornar atraente para o homem de hoje.

Fica um duplo convite: o da vigilância e de como ir conciliando e progredindo na proposta cristã sobre o Natal diminuindo gradualmente a proposta do consumo como eixo.

9976_504685082924274_861577337_nArtigo: O ADVENTO E O DEUS QUE SE FEZ HOMEM– Prof. Ms. Almir Magalhães, Padre da Arquidiocese de Fortaleza e Diretor Geral da Faculdade Católica de Fortaleza – FCF.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 07 de dezembro 2014.

150 ANOS DO SEMINÁRIO DA PRAINHA – Discurso de abertura do Pe. Almir Magalhães

14As primeiras palavras são de agradecimento ao nosso Deus pelo privilégio histórico de estar participando das solenidades que marcam os 150 anos desta Casa.

A determinação, o trabalho e a fé de todos os que estiveram à frente desta histórica Instituição, transformaram-na em uma das mais importantes e tradicionais instituições religiosas e formativas de nosso país.

6 de Junho de 1854 – Criação da Diocese do Ceará através da Bula PRO ANIMARUM SALUTE do Papa Pio IX e que teve como fruto primeiro e muito especial desta Igreja, dez anos depois, em 18 de outubro de 1864, a ereção do Seminário Episcopal do Ceará, conhecido como “Seminário da Prainha”.

A estrutura física do Seminário da Prainha abriga hoje a Cúria Arquidiocesana, a Escola de Pastoral Catequética e a Faculdade Católica de Fortaleza, todos a serviço do processo de evangelização da Arquidiocese de Fortaleza. O Seminário da Prainha abrigou e formou por muito tempo o clero não só da Arquidiocese de Fortaleza, mas do Ceará, Piauí e Maranhão.

Impossível falar desta Instituição sesquicentenária sem fazer alusão ao que ela representou e representa para a Igreja do Brasil, pelo bem que fez e continua fazendo para a intelectualidade cearense e de outros lugares do nordeste, já que, como afirmei, abrigou e formou muito tempo não só o clero da Arquidiocese de Fortaleza, mas do Ceará, Piauí e do Maranhão. Via de regra, há um nível de hostilidade contra a Igreja Católica; parte do mundo acadêmico e também escolar, faz avaliações reducionistas a respeito da presença da Igreja no mundo, esquecendo-se, como é o caso, do que ela produziu em todas as dimensões da vida, a contribuição para a sociedade.

Nosso professor Edilberto Reis, citando o historiador cearense Raimundo Girão, expressa muito bem este registro ao afirmar: “O álbum comemorativo dos 50 anos do Seminário da Prainha não poupa adjetivos para qualificar os frutos de sua existência. Para o autor do Álbum era claro como o dia. Bastava olhar para o lastimável estado em que se encontrava o clero cearense antes da criação da diocese e, por conseguinte, do mesmo seminário e ver o que se passava cinqüenta anos depois: em lugar de um clero escasso, um celeiro de vocações. Eram tantas que dava perfeitamente para exportar. A lista de padres cearenses, atuando fora do estado, é cuidadosamente enumerada como prova cabal disto, Além do mais, como se não bastasse o número de padres, o seminário ostentava orgulhosamente, já nas duas primeiras décadas do século XX, uma galeria de eminentíssimos membros do episcopado nacional. Havia entre eles até mesmo um arcebispo primaz. Com o passar dos anos, essa galeria cresceria mais ainda e daria à Prainha o glorioso título de Celeiro de Bispos da Igreja nacional. No lugar dos padres com pouquíssima formação intelectual, encontrados por D.Luiz, o Álbum, orgulhosamente apresentava a sua galeria de padres doutores. Mas isto não era só. Além dos padres doutores, o seminário se orgulhava de ser o berço da elite intelectual Cearense. Até hoje, os discursos que lembram saudosamente o que alguns chamam de era de ouro do seminário da Prainha, não podem deixar de lembrar que boa parte da elite intelectual do Ceará e mesmo de estados vizinhos, passaram pelos seus bancos”. (Revista Kairós n. 1-2 – janeiro-dezembro de 2004, PP. 33-34).

Na atualidade o papel de produção da intelectualidade é vivenciado em várias fontes. Entretanto continuamos com o papel importante e um compromisso diante da história.

Chegando ao nosso tempo, cumpre-nos afirmar que enfrentamos hoje alguns desafios que estão para além das nossas energias e da própria missão. O primeiro grande desafio diz respeito ao EIXO DA FORMAÇÃO –  segundo as diretrizes para a formação este eixo é o pastoral, o que significa dizer que tudo deve convergir, ter como horizonte a missão da Igreja, sua ação pastoral e evangelizadora. O referencial para alcançar os objetivos vamos encontrar no magistério da Igreja. Por quê não pensar nos dois últimos documentos produzidos pela CNBB – 94 – Diretrizes com as suas cinco urgências? e para nós da Arquidiocese de Fortaleza o nosso Plano de pastoral em perfeita sintonia com as Diretrizes. Totalmente ligado a uma das urgências o outro documento – n. 100 – COMUNIDADE DE COMUNIDADES: Uma nova paróquia – a conversão pastoral da paróquia, a fim de que nossas paróquias possam se estruturar de forma comunitária, com fundamento trinitário e de tamanho humano. Por fim, esta pérola de orientação pastoral que é a EVANGELII GAUDIUM do Papa Francisco. Quais são os limites que encontramos dentro deste primeiro desafio? Muito prático e se dá por conta do mundo plural que vivemos – sem dúvidas a diversidade é uma riqueza e, do ponto de vista teológico é a expressão de uma Igreja pneumatológica que respalda a pluralidade mas que aponta para a UNIDADE, A COMUNHÃO, A ECLESIALIDADE. Muitos têm a compreensão equivocada de que o pluralismo justifica se fazer cada um a seu modo. Sem a busca da unidade o que acontece é um paralelismo inaceitável. Aqui vale a pena citar o Papa Francisco: “A Pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: < Fez-se sempre assim > (EG nº 33).

Na academia o limite é o da interdisciplinaridade, nem sempre conseguimos nas diversas disciplinas apontar para o horizonte pastoral. O outro limite e que foge da nossa esfera é que os documentos de cunho pastoral tem a vocação para a GAVETA.

O segundo grande desafio é como tornar atrativo um Curso de Bacharelado de Filosofia e Teologia para um público alvo além dos seminaristas. Aqui poderíamos ter uma grande colaboração das Paróquias, verdadeiras responsáveis pela formação de seus Agentes de Pastoral. Nesta perspectiva estamos procurando abrir novos caminhos com a inclusão de novos cursos e para isto temos a experiência e a parceria da UNICAP.

Na programação estaremos homenageando na quinta-feira (dia 23) professores remanescentes e ex-alunos. É o elo que nos faz afirmar a ligação com a história da casa.

Ao finalizar nossos agradecimentos desde o primeiro bispo do Ceará – Dom Luis Antonio dos Santos que no início acumulou a função de Reitor do Seminário e o Padre Pedro Augusto Chevalier (Lazarista) – 1º Reitor até o Núcleo Gestor atual, que tenho a honra de dirigir, evidentemente passando por todos os que dirigiram este Seminário e de tantos anônimos que colaboraram e colaboram para a sua eficaz continuidade.

Que a celebração deste sesquicentenário seja de um lado o reconhecimento da história e de outro a responsabilidade na construção do futuro que faça jus à memória desta casa. Agradeço a Deus, e isto modestamente me orgulha, por estar à frente da FCF neste momento de graça para a Igreja do Brasil, especialmente de Fortaleza e que Nossa Senhora de Nazaré continue conosco.

 Agradeço a Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques todo o apoio que tem dispensado a esta Instituição.

Muito Obrigado.

Pe. Antonio Almir Magalhães de Oliveira
Professor e Diretor Geral da Faculdade Católica de Fortaleza – Noite de 21 de outubro de 2014 – Discurso proferido no Auditório Central Aloísio Cardeal Lorscheider / FCF.

 

Pe. Antonio Almir Magalhães de Oliveira

“Com Maria no Caminho da Esperança” – Editorial do Arcebispo de Fortaleza

assunçãoA CAMINHADA COM MARIA é pela décima segunda vez realizada no dia 15 de agosto, por ocasião da Solenidade de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira da Cidade de Fortaleza.

Esta caminhada teve início na abertura das comemorações dos 150 Anos da Diocese de Fortaleza no ano 2003. Fomos estimulados pelo Beato Papa João Paulo II com sua carta Rosarium Virginis Mariae e a proposta de uma manifestação mariana, neste ano especial destinado ao Rosário da Virgem Maria.

Assim, procuramos refazer o caminho dos inícios da fé católica e mariana nas origens da cidade de Fortaleza com uma caminhada. O Santuário de Nossa Senhora da Assunção, na Barra do Ceará, marca o ponto de partida da devoção mariana trazida pelos portugueses, nos inícios da colonização nestas terras, quando da construção da capela inicial dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Em seu itinerário esta devoção se dirigiu para a Fortaleza dedicada a Nossa Senhora da Assunção depois de conquistada dos holandeses que a construíram, e com a origem do vilarejo ao redor da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, tem início a cidade que ainda hoje, carrega este nome e esta devoção em sua igreja mãe catedral.

Em continuidade do ANO DA FÉ em 2013, estamos vivendo em 2014 o ANO DA ESPERANÇA no triênio de comemoração do Centenário Jubilar da Arquidiocese de Fortaleza. Nada mais oportuno, para reavivar a esperança de nosso povo que a volta às suas fontes cristãs: católica e mariana.
A memória de um percurso histórico da devoção a Nossa Senhora, da Barra do Ceará à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, é importante, mas, a essência, são os conteúdos da fé, contemplados e meditados com a oração do Rosário da Virgem Maria: vinte mistérios etapas da vida de Cristo e de Maria. Este caminho do rosário é síntese do caminho de fé de todo cristão. Parte de um encontro com Deus que é encontro com Seu Filho feito homem no seio da Virgem Maria. Deus encarnado na vida humana marca um trajeto e estilo de vida no Amor a Deus e ao próximo que se consumará no Sacrifício da Cruz e na Ressurreição de Jesus, com o dom do Espírito Santo e o nascimento da Igreja em seus caminhos pelo mundo rumo à glória do Reino de Deus definitivo, contemplado em Maria, Rainha do Céu e da Terra.

Este itinerário é ícone para toda a humanidade, que nele contempla o significado da história humana e meta que norteia toda a sua Esperança. A oração do rosário mariano não é apenas a repetição mecânica de certa quantidade de Pai-Nosso e Ave-Maria, e sim a mais profunda contemplação do Evangelho de Cristo, da Palavra de Deus, do viver em Cristo. Com Maria, Sua e nossa Mãe (cf. Jo 19, 26-27) aprendemos do vivo testemunho, como viver em Cristo. Por isso, a levamos para a casa como o apóstolo João. E a nossa casa comum é a Igreja inserida neste mundo, rumo ao Pai Celeste.

A caminhada física e espiritual renova as convicções da Fé e o sentido da Esperança de viver na cidade terrena, como semeadura e cultivo do viver definitivo na Cidade Celeste.

Esta CAMINHADA COM MARIA não nos afasta absolutamente de Cristo, mas a Ele nos faz tudo referir como princípio, caminho e meta de nossa Fé. Esta caminhada não nos aliena do compromisso com este mundo no qual vivemos, mas a ele nos integra de modo ainda mais responsável, como chão onde se caminha para a Vida definitiva. Nele vivemos o Amor que se tornará pleno e eterno.

+ José Antonio Ap. Tosi Marques
Arcebispo Metropolitano

Fonte: Pascom – Site da Arquidiocese de Fortaleza, 14 de julho de 2014.

Cultura da vingança x cultura da ternura

qvzn0cvq66cc8n6sion5r2g8152w8wjgxq20Pe. Almir Magalhães, Diretor Geral e Professor de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza – FCF.

O editorial do O POVO de 8 de maio traz interessante conteúdo sob o título Linchamentos como reflexo do desordenamento social, a partir de uma caso que tem o caráter emblemático na medida em que retrata uma mentalidade, uma cultura que toma conta da sociedade brasileira. O caso ficou conhecido nacionalmente quando uma senhora foi confundida com suposta praticante de rituais de magia negra que sequestraria e sacrificaria crianças (cf. editorial). Mais à frente o mesmo editorial afirma; “tentar fazer justiça com as próprias mãos tornou-se um fenômeno corriqueiro no Brasil de hoje”.

Ainda quando redigia esta reflexão, a mídia noticia um linchamento, com espancamento até a morte, de um acusado de roubar um celular. Fato ocorrido aqui em Fortaleza no bairro Vila Velha no dia 30 de maio. Estes casos e muitos outros poderiam ser multiplicados neste espaço. O que chama a atenção é que, ao que tudo indica, isto invadiu o cotidiano das relações humanas, invadindo a família, o namoro, o bairro e outras esferas dos relacionamentos primários, como algo que está internalizado na vida das pessoas e que nada exterior às mesmas é capaz de pensar uma outra forma de relacionamento, prevalecendo a mentalidade de vingança.

Penso que a partir dos anos 70, logo após a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil no México, penetrou no tecido da sociedade, talvez, o patamar a partir do qual se desenvolveu este tipo de reação que se entranhou como um jeito de ser: falo da conhecida Lei do Gérson, protagonizada por este grande craque de futebol quando fez a propaganda de uma marca de cigarro. Ela simboliza o querer levar vantagem em tudo, não se importando com a ética.

Permitam-me não entrar mais a fundo em outras análises e contribuições de outras disciplinas, em função do espaço que disponho, mas prefiro fazer o contraponto deste tipo de mentalidade com outra possibilidade: a revolução da ternura. Fico a me perguntar: será se nós cristãos ainda temos algo a oferecer à sociedade como testemunho, evidentemente sem ingenuidade e com este pressuposto buscar alternativas para uma sociedade em que possa prevalecer valores como a ternura, a misericórdia, o perdão? O que estamos fazendo da proposta de Jesus Cristo que ficou como legado para nós, já que ainda somos a maioria na sociedade? Podemos ou não influenciar, não mais como no período da cristandade, mas como a presença de uma Igreja no mundo que possa ser vista como sacramento da ternura de Deus, através de uma catequese não só doutrinal mas existencial, já que atinge idades básicas para a formação da consciência, de atitudes (crianças, adolescentes e jovens)?

Como fica a devoção popular mariana? Não precisaria ela ser trabalhada também no aspecto dos valores que Maria encarna, e não só na perspectiva de milagres, embora que saibamos que é um grande desafio? Multiplicam-se os terços da misericórdia nas emissoras e grandes eventos, sem uma alusão à misericórdia, às respostas violentas da sociedade. O papa Francisco, na exortação apostólica A alegria do evangelho, afirmou e fez um convite: o evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura (destaque meu). (EG n. 88).

Com esta breve reflexão não é meu objetivo deslocar para a Igreja e os cristãos os desafios que a sociedade enfrenta em nível macro e micro, mas fazer refletir se é reservado ou não para nós cristãos um papel histórico neste aspecto, já que estamos sendo conduzidos à barbárie. Nós cristãos somos chamados a construirmos a “escola” da ternura.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 8 de junho de 2014.

Teólogo e Prof. Pe. Júnior Aquino ministra conferência no Instituto para a Igreja Global e Missão da Conferência dos Bispos da Alemanha

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Na semana de 7 a 11 de abril de 2014, o Dr. Pe. Francisco Júnior Aquino, professor de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza, esteve na Alemanha participando da Jornada Teológica, promovida pelo Instituto para a Igreja Global e Missão da Conferência dos Bispos da Alemanha. O encontro tratou do tema “a Igreja dos pobres” e se deu na Faculdade de Teologia dos Jesuítas em Frankfurt.

Pe. Júnior Aquino foi acolhido pela Assembleia com estima e alegria como um convidado que certamente muito acrescentaria a todos ali presentes, exatamente pela referência que é na missão de pensar a teologia e vivê-la no seu compromisso com Deus e com o homem, sobretudo com os mais pobres e sofredores. Seu engajamento social é um reflexo da sua paixão por Jesus Cristo e por compreender que assumir a vida de Cristo é assumir o compromisso radical com os menos favorecidos. A Igreja do Ceará é o seu chão, mas um chão que remete ao Brasil e toda América Latina, carente de missionários que resplandeçam a vida de Jesus e seu amor aos excluídos.

Havia outros conferencistas convidados que deram as suas colaborações de forma muito satisfatória. Na minha participação, dia 8 de abril,  – afirma Pe. Júnior Aquino – pude fazer uma abordagem teológica do tema: “Uma Igreja pobre e para os pobres”, e aqui descrevo os pontos fundamentais:

  • Primeiro: Meu ponto de partida é a encíclica do Papa Francisco: “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho). Apresentei de forma teológica como esse tema aparece no documento;
  • Segundo: A Igreja dos pobres e a opção pelos pobres. Com este fio condutor estabeleci  um diálogo com o que diz o Documento  e fiz uma conexão o contexto do meu chão, do meu povo, a América Latina. Procurei mostrar que esse “ser dos pobres” que o papa Francisco propõe é uma nota e uma característica essencial da Igreja de Jesus Cristo. É sabido que esse tema da Igreja dos pobres vem do Papa João XXIII, do Concílio Vaticano II, pensado e desenvolvido por um grupo de bispos, depois estendida a reflexão e compromisso através das Conferências Episcopais de Medellín, Puebla e pela Teologia da Libertação.
  • Terceira: O “ser dos pobres”, ou, “opção preferencial pelos pobres”, como se pode chamar, é, repito, uma característica fundamental da Igreja de Jesus Cristo. Isso é uma questão dogmática, pois nos primeiros Concílios da Igreja se definiu que a Igreja de Jesus Cristo é Una, Santa, Católica e Apostólica. Assim podemos e devemos acrescentar com João XXIII e as Conferências Episcopais, inclusive Santo Domingo, Aparecida e o Pontificado de Francisco, que a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica é a Igreja dos pobres. Esse “ser dos pobres” é uma verdade dogmática de fé, uma exigência fundamental da fé.

A Faculdade Católica de Fortaleza, através do seu corpo docente e discente, muito se alegra com o Professor Pe. Júnior Aquino, este irmão entre os irmãos. Cremos que não se trata de privilégio, mas de missão imposta pela liberdade e paixão com que abraça o Evangelho. Sua vida é compromisso humilde e corajoso com a construção do Reino de Deus. Que Jesus Crucificado e Ressuscitado o abençoe sempre na sua missão de pensar e viver uma teologia tão divina e tão humana.

Atenção: O texto da Conferência do Dr. Pe. Francisco Júnior Aquino será publicado na íntegra no próximo número da Revista Kairós – Faculdade Católica de Fortaleza.

Leia mais sobre a participação do Pe. Júnior Aquino neste evento no Site do Jornal Alemão “STIMMEN DER ZEIT: o jornal da cultura cristã”: http://migre.me/j4N9W

Por: Marcos de Aquino – Setor Comunicação FCF